As palavras que usamos também ensinam

Há momentos que nos ficam.
Durante as férias, deparámo-nos, na rua, com uma criança que não falava. Uma situação aparentemente comum para mim, até que a criança de 10 anos que estava comigo comentou: “Ah, pois, Rita… esse menino é especial.”
Confesso que aquela frase petrificou-me. Não pela palavra em si, mas por tudo aquilo que ela parecia significar naquele momento. Perguntei: “Mas porque é que dizes que ele é especial?” A resposta foi simples: “É o que dizem na escola.”

E quando perguntei o que significava, afinal, ser “especial”, não me soube explicar. Apenas descreveu aquilo que observava na escola: uma criança que andava no recreio de mão dada com um adulto, não falava e, por isso, era “especial”.
Foi aí que senti um verdadeiro murro no estômago. Não pela criança ter utilizado aquela palavra. Ela estava simplesmente a reproduzir aquilo que tinha ouvido. E foi precisamente por isso que senti que era importante parar, conversar e desconstruir aquela ideia. Porque as palavras que usamos também ensinam. Todos somos especiais. Todos somos diferentes. “Especial” é uma palavra que, muitas vezes, surge de um lugar de carinho, de cuidado e de empatia. Muitas pessoas utilizam-na com a melhor das intenções, sobretudo quando falam de crianças com deficiência ou neurodivergentes.
Mas é importante perguntarmo-nos: o que estamos realmente a ensinar quando usamos “especial” para descrever uma criança?
Uma criança autista não é especial porque é autista. Não é especial porque não fala. Não é especial porque precisa de mais apoio. Não é especial porque brinca de uma forma diferente, porque precisa de mais tempo, porque se movimenta mais ou porque comunica de outra maneira. É uma criança. Uma criança com características próprias, tal como todas as outras. Todos somos diferentes. Temos diferentes características, interesses, capacidades e dificuldades. Há coisas que fazemos facilmente e outras que nos exigem mais esforço. Há quem aprenda melhor a ouvir, quem precise de ver, quem precise de experimentar, quem precise de mais tempo ou de mais apoio. E isso não torna ninguém mais ou menos “especial”.
E se, em vez de rotularmos, descrevêssemos?
Quando dizemos: “É uma criança especial.”, estamos, muitas vezes, a dizer muito pouco. Mas quando dizemos: “É uma criança que comunica de outras formas.” Ou “Precisa de mais apoio em determinadas áreas.” Ou “Participa melhor quando pode estar em movimento.” Ou “Aprende melhor quando utilizamos determinadas estratégias.”, estamos a ajudar a compreender. Descrever não é rotular. É dar contexto. E compreender uma criança permite-nos responder melhor às suas necessidades, respeitar a sua forma de estar e criar oportunidades para que participe.
Uma dificuldade não define uma criança inteira. O facto de uma criança não falar não significa que não tenha nada para dizer. O facto de precisar de apoio não significa que não seja capaz. O facto de aprender de uma forma diferente não significa que aprenda menos. Aliás, naquela conversa, foi precisamente isso que procurei explicar. Sim, aquela criança tinha dificuldades em algumas áreas. Mas também tinha competências, interesses e capacidades próprias. Tal como qualquer outra criança.
Não precisamos de esconder a diferença. Talvez uma das coisas mais importantes que podemos fazer enquanto adultos seja deixar de tratar a diferença como algo que precisa de ser disfarçado. Não precisamos de esconder o autismo. Não precisamos de substituir palavras por eufemismos. Precisamos de falar sobre ele de forma adequada à idade, clara e respeitosa.
As crianças percebem muito mais do que, por vezes, imaginamos. E quando não explicamos, elas procuram as suas próprias explicações. Foi isso que aconteceu naquele momento. Uma criança viu alguém que não falava, que estava de mão dada com um adulto e que se comportava de uma forma diferente daquela que conhecia. E encontrou uma palavra para explicar essa diferença: “especial”.
Cabe-nos, enquanto adultos, ajudar a construir uma explicação diferente. Explicar que existem pessoas que comunicam através da fala e outras que comunicam de outras formas. Que há quem precise de mais ajuda e quem seja mais autónomo. Que há quem aprenda rapidamente determinadas coisas e precise de mais tempo para outras. Que algumas pessoas gostam de estar no meio de muitas pessoas e outras preferem ambientes mais tranquilos. Que existem muitas formas de brincar, de aprender, de comunicar e de estar no mundo. E, sobretudo, que ser diferente não significa ser menos.
As palavras também constroem a forma como olhamos para o outro
Sabemos que aquilo que é diferente, aos nossos olhos, pode despertar curiosidade, estranheza ou até desconforto. Mas podemos ensinar as crianças a olhar para essa diferença com curiosidade, respeito e empatia, em vez de a transformar numa categoria à parte. Não se trata de fingir que somos todos iguais. Não somos. E ainda bem.
No fundo, aquela pequena conversa durante as férias voltou a lembrar-me de algo que, enquanto terapeuta e enquanto adulta, considero essencial: as crianças aprendem connosco a olhar para a diferença. Aprendem com as palavras que escolhemos, com a forma como falamos das pessoas e, sobretudo, com a forma como nos relacionamos com aquilo que não conhecemos.
Por isso, talvez a questão não seja apenas “devemos ou não dizer que uma criança é especial?” Talvez devêssemos começar por perguntar: “O que estamos a ensinar quando dizemos isso?”
Porque todos somos especiais para alguém. Todos somos diferentes. E todos merecemos ser vistos para além dos rótulos.
Hoje em dia, temos também ao nosso alcance muitos recursos que podem ajudar nesta tarefa: livros, histórias, vídeos, filmes e outros materiais pensados para diferentes idades, que nos permitem abordar a diferença, explicar o autismo e outras condições do neurodesenvolvimento e desconstruir crenças e ideias feitas. Recursos que podem ser úteis não só para as crianças, mas também para os adultos, porque também nós, enquanto adultos, podemos ter ideias preconcebidas que precisam de ser questionadas e reformuladas.
Rita Mendes
Cédula Profissional C-040332187
Palavras-chave: Neurodiversidade; Neurodesenvolvimento; Neurodivergentes; inclusão;




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