Quando os números são um obstáculo invisível: Compreender a discalculia no desenvolvimento infantil
- Francisca Maia

- há 7 dias
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Atualizado: há 21 horas
“Ser bom aluno a matemática é muitas vezes visto como um sinal de inteligência.” No entanto, existem muitas crianças inteligentes que lutam diariamente com os números. Para elas, a matemática não é apenas uma disciplina desafiante, é uma fonte de frustração. Esta condição tem um nome: discalculia. Conhecia?

A discalculia é uma Perturbação do Neurodesenvolvimento, enquadrada nas Perturbações de Aprendizagem Específica. Trata-se de uma condição que compromete competências fundamentais relacionadas com a matemática, como a memorização de factos aritméticos, a capacidade de relacionar números, realizar cálculos, raciocinar matematicamente, resolver problemas e compreender enunciados. Pode ainda afetar competências mais básicas, como a perceção de quantidade e a compreensão do conceito de número. Estudos científicos realizados dizem-nos que se estima que a discalculia afete entre 3,5% a 6,5% da população em idade escolar, sendo tão frequente quanto as perturbações de leitura. Apesar disso, continua a ser menos reconhecida e menos falada. Muitas crianças crescem a ouvir que “não se esforçam o suficiente” ou que “não têm jeito para números”, internalizando sentimentos de incapacidade que afetam a autoestima e a relação com a escola.
As dificuldades podem manifestar-se de diferentes formas. É comum observar dificuldades na compreensão de conceitos de medida, quantidade, tempo, espaço e dinheiro, bem como dificuldades em entender o valor posicional dos números (unidades, dezenas e centenas). Podem surgir problemas na identificação e utilização correta de símbolos aritméticos, dificuldades nas operações básicas como adição, subtração, multiplicação e divisão, e grande esforço na memorização da tabuada. Algumas crianças realizam leituras incorretas dos números, omitindo, trocando ou acrescentando algarismos. Para além do contexto escolar, a discalculia pode interferir com atividades do quotidiano. Contar dinheiro, fazer cálculos mentais simples, gerir horários ou estimar o tempo necessário para concluir uma tarefa podem tornar-se desafios significativos. Estas dificuldades repetidas podem conduzir a frustração, evitamento e ansiedade associada à matemática.
Quando não identificada precocemente, a discalculia pode ter impacto emocional e comportamental relevante. A criança pode desenvolver baixa autoestima, insegurança, ansiedade face às tarefas escolares e uma quebra progressiva no rendimento académico. A repetição de experiências de insucesso tende a consolidar crenças negativas sobre as próprias capacidades, o que pode ter repercussões a médio e longo prazo, inclusive no percurso académico e profissional. O diagnóstico precoce é fundamental. A identificação atempada reduz o risco de insucesso continuado e permite a implementação de estratégias específicas e ajustadas às necessidades da criança. Entre as medidas que podem fazer a diferença destacam-se a atribuição de mais tempo para a realização de exercícios, o ajuste do nível de dificuldade das tarefas, a divisão de problemas em etapas mais pequenas e estruturadas, a utilização de recursos visuais e materiais concretos e a ligação da matemática a situações da vida real, como ver as horas, contar objetos ou gerir pequenas quantias de dinheiro. É igualmente essencial encorajar a criança a pedir ajuda, promovendo um ambiente seguro e livre de julgamento.
Falar sobre discalculia é fundamental para quebrar mitos. Não se trata de preguiça, desinteresse ou falta de esforço. Trata-se de uma condição do neurodesenvolvimento que requer compreensão, avaliação especializada e intervenção adequada. Se existem dúvidas relativamente ao desempenho matemático do seu filho, procurar orientação especializada pode ser determinante para transformar dificuldades em oportunidades de desenvolvimento.
Francisca Maia
Cédula Profissional 28907
Palavras-passe: discalculia, desenvolvimento infantil, perturbação de aprendizagem específica, dificuldades de aprendizagem, baixa autoestima, insegurança emocional




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