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Ter uma Perturbação do Desenvolvimento da Linguagem (PDL): a dificuldade que surge na comunicação desde cedo e que cresce na escola

  • Foto do escritor: Soraia Algarinho
    Soraia Algarinho
  • 20 de jan.
  • 3 min de leitura

A Perturbação do Desenvolvimento da Linguagem é definida como uma condição do neurodesenvolvimento e caracteriza-se por dificuldades persistentes na compreensão e/ou na expressão da linguagem, que surgem desde a infância e não são explicadas por défice intelectual, perturbações sensoriais, condições neurológicas adquiridas ou falta de exposição linguística. Estas dificuldades podem afetar o vocabulário, a morfossintaxe, a organização do discurso, a capacidade de narrar acontecimentos e de comunicar ideias e sentimentos de forma clara e eficaz, tendo um impacto funcional significativo na aprendizagem, na comunicação diária e na participação social. A PDL tende a persistir ao longo do desenvolvimento, ainda que as suas manifestações se alterem com a idade, sendo frequentemente menos evidente nos primeiros anos e mais marcada em contextos escolares linguisticamente exigentes (Bishop et al., 2023; World Health Organization, 2019).



Enquanto terapeuta da fala, há uma frase que vou ouvindo recorrentemente e que traduz bem esta realidade: “ele sabe, mas não consegue dizer”. Esta ideia acompanha muitas crianças com Perturbação do Desenvolvimento da Linguagem desde o pré-escolar e ajuda a compreender porque passam, muitas vezes, despercebidas durante esta fase. Na educação pré-escolar, estas crianças são frequentemente identificadas como tranquilas, participam nas rotinas, brincam com os pares e aparentam compreender o que lhes é pedido. Como a aprendizagem é maioritariamente baseada no jogo e na observação, as dificuldades linguísticas podem não ser facilmente identificadas. No entanto, no dia a dia, vão-se observando sinais como a dificuldade em contar o que fizeram, em organizar uma história ou em expressar sentimentos. As ideias existem, mas a linguagem não surge de forma clara e organizada, o que gera frustração, ainda que, numa fase inicial, esta não seja tão evidente.

 

Com a entrada no primeiro ciclo, esta frustração comunicativa tende a tornar-se mais visível, uma vez que a escola passa a exigir linguagem de forma constante e cada vez mais complexa, seja para compreender instruções verbais, aprender novos conceitos, responder oralmente, explicar raciocínios ou aprender a ler e a escrever. Para uma criança com PDL, estas exigências traduzem-se num esforço acrescido. Muitas vezes sabe a resposta, mas não consegue explicá-la, perde-se nos enunciados, sobretudo quando são longos, demora mais tempo a processar a informação ou tem dificuldade em organizar ideias no papel. Perante estas dificuldades, a criança pode manifestar comportamentos que são frequentemente interpretados pelos adultos como distração, desatenção ou falta de motivação.

 

Com o acumular de experiências de insucesso, surge um comportamento muito comum: o evitamento da comunicação oral. A criança fala menos, evita participar em sala de aula, responde de forma muito curta ou permanece em silêncio. Não porque não tenha nada para dizer, mas porque comunicar se torna demasiado exigente, cansativo e frustrante, levando-a a acreditar que não é capaz.

 

Ter uma Perturbação do Desenvolvimento da Linguagem é, por isso, viver diariamente com o desafio de querer comunicar e não conseguir fazê-lo da forma desejada. É crescer num contexto escolar rodeado de linguagem, mas nem sempre com uma linguagem acessível. Por isso, é fundamental reconhecer estas dificuldades o mais cedo possível e compreender que não se trata de falta de interesse ou de capacidade. É igualmente importante que a escola e a família se adaptem à criança, e não o contrário.

 

Enquanto terapeuta da fala, o conselho que deixo a pais e professores é simples e claro: se sentem que a criança sabe mais do que consegue dizer, isso é um sinal de alerta. Para esclarecer dúvidas e evitar que a frustração comunicativa se agrave, procurem ajuda especializada o quanto antes, pois a intervenção precoce pode fazer uma diferença significativa no percurso escolar, emocional e comunicativo da criança.

 

Palavras-chave: Perturbação do Desenvolvimento da Linguagem (PDL); Comunicação; Pré-escolar; Escola; Linguagem

 
 
 

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