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A Árvore dos Desejos - uma reflexão sobre os pedidos das famílias

  • Foto do escritor: Patrícia Silvestre
    Patrícia Silvestre
  • há 7 dias
  • 2 min de leitura

Durante o mês de dezembro, na nossa clínica, convidámos crianças, jovens e famílias a escreverem desejos para o próximo ano. Havia apenas uma condição: não podiam ser coisas que se compram com dinheiro.


Findadas as festividades, é altura de refletir sobre as partilhas que a Árvore dos Desejos recebeu. Os pedidos que surgiram foram simples mas muito reveladores.



Entre crianças e jovens, os desejos mais frequentes foram: mais tempo, mais descanso, dormir mais, menos escola, menos aulas e menos trabalhos. Entre os pais, surgiram pedidos como mais paciência, mais saúde e menos trabalho.


À primeira vista, estes desejos parecem diferentes. Do ponto de vista da Psicologia, porém, contam uma história comum.


As crianças e os jovens expressam as suas necessidades de forma direta e concreta. Quando pedem mais tempo ou mais descanso, estão a sinalizar cansaço físico e emocional, necessidade de pausa e de ritmos mais ajustados ao seu desenvolvimento. Quando pedem menos escola ou menos trabalhos, não estão necessariamente a rejeitar aprender, mas a expressar sobrecarga, pressão e dificuldade em equilibrar exigência com recuperação.


A infância e a adolescência atuais são vividas, muitas vezes, em agendas cheias, com pouco espaço para o descanso, para o brincar livre, para o ócio e para o simples “não fazer nada” — elementos fundamentais para a autorregulação emocional, a criatividade e o bem-estar psicológico.


Os desejos dos pais surgem noutro plano, mas não noutra direção. Quando os adultos pedem mais paciência, saúde e menos trabalho, estão a expressar o peso da responsabilidade, da exigência constante e da dificuldade em conciliar todas as áreas da vida. Pedem recursos internos para continuar a cuidar, a educar e a responder às múltiplas solicitações do quotidiano.


Este contraste não revela mundos separados, mas sim um mesmo sistema em esforço. Adultos, crianças e jovens estão a tentar adaptar-se a ritmos acelerados e expectativas elevadas — cada um expressando, à sua maneira, a necessidade de abrandar.Os desejos desta árvore de Natal lembram-nos que a saúde mental não se constrói apenas com mais competências, mais tarefas ou mais desempenho, mas com equilíbrio. Aprender, crescer e cuidar exigem energia, e essa energia só se renova quando há espaço para o descanso, para o tempo partilhado e para a presença.


Talvez o maior ensinamento que nos fica seja este: as crianças e os jovens não pediram mais coisas, pediram mais condições para viver o seu tempo. E os pais, ao pedirem paciência e saúde, mostram o quanto também precisam de apoio para sustentar esse caminho.


Enquanto profissionais, cuidadores e comunidade, fica o convite à escuta e à reflexão: o que podemos simplificar? Onde podemos aliviar? Como podemos proteger o tempo, o descanso e as relações?Porque, muitas vezes, cuidar da saúde mental começa exatamente aí: abrandando.

 

Palavras chave: saúde mental, bem-estar emocional, parentalidade, regulação emocional, equilíbrio.


 
 
 

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